Saturday, 2 February 2008

Subaru Impreza: O dragão nipónico

Se me perguntarem, assim de repente, não faço ideia de quantos cavalos tem um Subaru Impreza. Calculo que todos os putos de boné ao contrário, aprendizes de criminosos da Vasco da Gama e "papa-revistas" saibam, mas eu não me lembro . Sei que tem para cima de uma quantidade deles.

Mas não é isso, como é hábito, que me traz aqui. Apesar deste armazém de potência andar a nadar nos nossos sonhos e a insinuar-se perturbadoramente nas estradas, há quase vinte anos, pouco se tem escrito acerca deste incontornável ícone de finais de século, onde a História sobre desportivos teve de ser reescrita graças a este familiar drogado com anabolizantes.

Quando em inicio dos anos oitenta ouviamos a palavra "Subaru", esta significava apenas uns pequenos carrinhos engraçadinhos vendidos por curiosidade pelos stands da Nissan. Alguns mais conhecedores, saberiam apontar para um modelo com motor de dois tempos, em que tinhamos de tirar o casaco para poder entrar no seu interior. Coisa pouca. Sabíamos vagamente que era japonês.

Porém, quando vimos nas emissões internacionais um banal familiar a pavonear-se impunemente em frente dos Mitsubishi e dos Peugeot, com aqueles 555 nas portas e pintados de azul fluorescente, mal pudémos acreditar que aquilo tinha sido feito pela mesma malta dos "carrinhos de brinquedo" do Entreposto. A lenda do "Scooby", tinha nascido.

Demorou um pouco até que Portugal pudesse deleitar-se com o som de rufia de voz grossa do potente propulsor de quatro cilindros opostos. Tal como tinha feito com o carocha, os nossos valorosos homens da BT, escolheram mais uma vez um icónico "flat four" para persuadir os menos sociáveis a respeitar a lei. A presença destes "caças" na estrada, foi talvez um factor dissuasor para que as baixas continuassem...digamos, reduzidas.

Qualquer Mercedes ou BMW, tripulado por um azeiteiro dono da faixa da esquerda, disparado a mais de duzentos, saberia que teria grandes hipóteses de ter este míssil colado na traseira a tirar fotografias de cinquenta contos cada. O mais humilhante, é que estes burgessos estavam a ser capturados não por um puro sangue Alemão ou Italiano, mas por um modesto familiar de linhas desactualizadas oriundo do Japão. Subitamente, lá no escritório, já não se podiam gabar de terem feito Porto-Lisboa numa hora...Porque o Dragão Nipónico estava a solta, e não fazia prisioneiros.

O Subaru Impreza , sempre foi o símbolo da cultura japonesa. Como nos filmes. Um pacato e sábio idoso, que caso a necessidade surja, desdobra-se em movimentos e artes marciais, distribuindo pontapé e murro por todo o lado e feitio. Terminando a sua actuação com um provérbio e uma vénia. Ao som de uma cítara tangida por uma servil Geisha.

Mas por outro lado, o Subaru Impreza é um órfão errante. Fora dos traçados desportivos, é um pária perseguido e odiado. A sua extrema potência arrumada numa pele de automóvel familiar fere-o de morte, e quem o adquire não está lá muito a pensar na família. Secretamente, o Subaru espera que o respeitem como opção, como que a dizer : " Hei, eu sou capaz de envergonhar um Porsche, mas sou um carro prático. " Não é . As quatro portas são uma "desculpa" esfarrapada para o entusiasta que saliva incontroladamente ao apresentar o carro á esposa: " Estás a ver , querida? Podemos levar os miúdos á escola, pois tem quatro portas." Mas infelizmente a escola está a quinhentos metros, e uma ida diária para o trabalho custa tanto como comprar o passe para o mês inteiro.

O barulho trovejante do motor, serve para apenas fazer virar a cabeça dos adolescentes na paragem, e não para degladiar-se com adversários do mais alto gabarito nas pistas internacionais. E juntar pontos nas bombas de combustível. Subitamente, o dono de um Subaru sente-se como se tivesse comprado uma Playstation no valor de largos milhares de Euros. Tem um carro para ser olhado por homens. Mais nada. É preocupante. A esposa já está farta de ser levada ao trabalho a duzentos, com o puto a berrar de medo no banco de trás. Os criminosos das zonas industriais e da Vasco da Gama, granjearam tal respeito, que ninguem quer ser tornado num projéctil a bordo de tal engenho. Ficam-se pelos Ibiza e pelos Civic, que sempre conseguem dominar mal e porcamente. A visão humilhante de serem ultrapassados como se estivessem parados , fá-los acordar aos prantos de noite, conseguindo adormecer apenas com o pensamento reconfortante que quando chocarem de frente com um camião, ao menos a familia pode-lhes fazer um funeral com um corpo inteiro, e não apenas com um saco de plástico.

A fábrica, bombardeada por uma urgente necessidade de actualização, permanentemente atacada pelo invejoso Mitsubishi Evolution ( Que por esta altura deve ir na versão Evolution 362.521), sem querer perder o carisma , optou por uns grotescos faróis de "olho de peixe", o que causou ainda mais náusea nos apreciadores desesperados. Os jogos de consola e o desenho de uma nova frente, parecem ter dado finalmente um novo fôlego ao conceito.


O Subaru Impreza, para concluir, é como se de repente pudéssemos ir de F-16 para o trabalho. Porreiro e contagiante, mas com custos astronómicos e uma manuntenção aturada. Mas que nos faz sem dúvida agradecer á Natureza não nos ter criado peixes, pois dentro de água não poderíamos suspirar e ter pensamentos proibídos sempre que este caprichoso e perturbador carro ousa passar quase ao ralenti á nossa frente, com aquele "Tugudugudugudugudu"!

3 comments:

Alexandra Moura said...

O Subaru pode realmente ser um icone do automobilismo, mas não é lá muito prático para o dia-a-dia.

Gostei do artigo. Parabens

Diogo said...

Pudesse eu ter um "scooby". O problema, é que o seguro é estupidamente elevado e incomportável.

Mas que é uma montra de tecnologia, lá isso é.

Diogo said...

Aqela parte do "bater contra um camião", apesar de violenta, retrata a realidade. Estas pessoas só abrandam quando lhes acontece algo deste género.

As nossas estradas estão à mercê destes criminosozitos de meia tigela.