Tuesday, 5 February 2008

Daewoo Matiz : Nunca o esquecerei!

Graças ao medonho trânsito da ponte, fui forçado a optar pelos "barcos do Cáchetré" ( Porque é que ninguém diz Cais do Sodré? ) para poder ir para o outro lado. O empregado de bigode farfalhudo dos bilhetes, estende a cabeça para fora do guichet, e sentencia-me:

" É desses sem carta, não é? "-Tentando obviamente situar o Daewoo Matiz que conduzia , na tabela de preços da Transtejo.

O meu amor próprio ficou ferido de morte. Ali estava eu, com um automóvel excepcionalmente bem conseguido, produzido por um gigante industrial de renome mundial, a ser vilipendiado e reduzido á condição de mero reformado sem carta, tripulando uma tremelicante máquina de cimento coberta com uma caixa de Fibra. O Daewoo Matiz não era nada disso.

Por outro lado, a reacção que tive quando efectuei o test drive ao Matiz pela primeira vez, e o levei para junto de colegas conhecedores, que tal como damas experientes não olham ao tamanho, mas sim á competência, foi uma conclusão em uníssono de que estavamos em presença de um novo fenómeno tipo Austin Seven, ou Mini. Um construtor de grande dimensão que apresentou um carro diminuto, capaz de satisfazer as necessidades actuais de um transporte em massa,para o cidadão de poucos recursos.

Com efeito, este pequeno icone desenhado pela Italjet no longinquo ano de 1992, incorporava tudo o que havia de melhor na construção de então. Injecção multiponto. Airbags.Zonas deformáveis.Direcção assistida. Ar condicionado. Vidros elétricos. quatro portas. Radio. Tudo.

Para juntar ao ramalhete, uma extraordinaria garantia de 3 anos, quando a maior parte dos construtores davam " a medo" uma garantia de um ano.

Os sorrisos de maledicência de pessoas que tinham carros " a sério", nunca seriam originais, pois o mini e o seven sofreram na pele as mesmas agruras. Nada que perturbasse o saudável ruido do três-cilindros, a evoluir sem esforço na auto-estrada a uns surpreendentes 150! Tirando o episódio dos barcos, e dos estúpidos que precisam de relacionar os centímetros de comprimento com a sua virilidade, o Daewoo Matiz revelou-se um companheiro capaz , duradouro,fiável ,económico e tentador. O Matiz era como o nosso "Boby"; que dava pulos sempre que ligavamos a ignição.

A opçao comercial de mudar o nome para Chevrolet, embora mantendo o nome Daewoo para os mercados asiáticos , veio retirar alguma humildade a este excepcional veículo, injustamente preterido por outras marcas mais "conhecidas", mas básicamente fabricadas com a qualidade de uma barra de sabão. Os vizinhos nunca iriam perdoar se não comprássemos um Punto ou um Corsa! Cinzento!

A adopção de um motor de quatro cilindros e um ar de familia mais apurado vieram retirar algum carisma e carácter ao pequeno imperador, tornando-o numa espécie de " mais um" entre a massa disforme que são os carros novos.

Este carro sempre passou despercebido à maioria de nós. Mas lembremo-nos que de entre os caixotes de plástico espalhados pela rua, onde só muda o simbolo, este pequeno irrequieto e fiel amigo era um dos carros que ousava quebrar a monotonia das ruas, com o seu barulho de despertador de tres cilindros. O Subaru Impreza era outro, com a sua voz arrogante de quem quer arranjar sarilhos. Os outros todos, apenas um saco cheio de " zzzzzzzz" a ocupar espaço escusadamente nas ruas , e não nos dar razão nenhuma pela qual não devamos escolher um clássico para circular no dia-a-dia.

Adeus, Matiz de tres cilindros. Pode ser que nos voltemos a ver um dia destes, quando fores um clássico respeitado e desejado.E te lembres dos milhares de quilómetros que fizemos juntos, sem sequer mexer num fusível. Das cargas que nunca te recusaste a transportar apesar de sempre te terem chamado de pequeno. Da bola de reboque que te instalei e com que iamos para o Algarve serra acima e serra abaixo com um atrelado transportando 300 KG. Das cinco pessoas que sempre trazias.Nunca foste pequeno. Foste um dos melhores carros que já tive. E olha que já tive um Rolls! Tens um lugar marcado junto ao Fiat 500, ao Mini, ao Austin Seven e ao Isetta. E a todos os outros grandes carros que nunca se preocuparam com o tamanho...

2 comments:

Miguel Brito said...

O Matiz original foi uma lufada de ar fresco no panorama motorizado. Os farois redondos conferiam um aspecto reguila de pequeno Mickey, e tinha um aspecto saudavelmente simplificado, modesto e útil, como se fosse uma reinterpretação de uma renault 4L. Desenhado por Giugiaro, tal como o primeiro golf, nenhum construtor "sério" europeu acreditou no valor da diferença, e foi a Daewo, que para além de fabricar electrodomésticos, acreditou no valor do produto: e abriu as portas do sucesso..

Mike Silva said...

E aquele autocolante dentro do capot a dizer " Daewoo Heavy Industries" dava-nos alguma confiança.

Obrigado pelo seu comentário.