Thursday, 29 May 2008

O PÓ E OS JORNAIS DAS FORD TRANSIT

Esta Ford, é actualmente a Transit mais antiga do MUNDO! Pertence a um entusiasta inglês.

( publicado no número de Abril da "Topos & Clássicos)


Por Mike Silva


Mas porque raio alguém iria perder tempo a escrever sobre uma corriqueira,banal e vulgar Ford Transit? É como estar a escrever sobre uma caixa de papelão!


A única ocasião que poderíamos eventualmente dispensar á Ford Transit, seria se precisássemos de fazer umas mudanças em casa, e fôssemos pedir emprestada a "Chassis comprido" do vizinho que trabalha nas obras. Ou então decidíssemos ir vender roupa contrafeita para o mercado de Azeitão...
Isto é uma injustiça! Náo podemos continuar a ignorar eternamente um veículo que tem propulsionado o mundo há cerca de quarenta anos. Se o Renault 4 é como um martelo que batemos até partir, a Transit pode ser considerada um torno. E uma bancada. E uma marreta.
Conhecida pelo terno nome de Tranny no Reino Unido, onde tem uma legião doentia de seguidores como convém, a Transit celebrou recentemente o seu 40.aniversário. Inicialmente incorporando um motor V4 a gasolina, utilizado no Taunus e nos modelos Saab, cedo instalou um propulsor Diesel á prova de bomba, que proporcionou milhões de quilómetros livres de problemas.


Até ao seu aparecimento, o veículo de carga mais difundido no mercado era a célebre Volkswagen Kastenwagen, mais conhecida entre nós pelo incontornável nome de Pão de Forma.
Mas os conhecidos problemas de concepcção de interior, onde o motor ocupava grande parte do espaço disponível, e uma submotorização sofrível, levaram o público a aderir em massa ao aparecimento do primeiro comercial da era moderna. Subitamente, a Ford Transit não se negava a nada, franzindo o sobrolho a toda a tentativa desesperada da concorrência em apresentar uma rival.


Apesar dos puristas considerarem o modelo Transit Taunus de 1964 produzido na Alemanha como efectivamente a "primeira " Ford Transit, o sentimento generalizado convencionou chamar para Inglaterra o monopólio do culto, declarando o primeiro modelo como construido em Langley,Berkshire no ano de 1965. Uma versão britanica de motor a gasolina chamada "York" foi utilizada nos primeirosmodelos, embora para exportação estas carrinhas tenham utilizado o já falado motor V4. A propulsão Diesel, esteve a cargo do ultra-competente motor Perkins, na primeira série.


Quando nos dirigíamos para uma "bico de pato" , ou seja as Ford Transit do primeiro modelo que tinham a grelha sobressaída para poder alojar o motor Perkins ( As de gasolina tinham a grelha direita), sabíamos que iamos fazer algo de diferente. A não ser claro, que trabalhássemos nas obras, ou fossemos feirantes. Por isso vestíamos umas calças velhas e uma camisola rota. Iamos trabalhar no duro, fosse a fazer massa, ou a caregar móveis do segundo andar.
E ainda bem que o fazíamos! Muito antes de iniciar o trabalho, eis que entrávamos numa dimensão de destruiçao automóvel, apenas vista mais tarde nos "crash tests"...Os bancos, cobertos de camadas de pó que se podiam cortar com um serrote, encontravam-se sempre carcomidos, como se tivessem sido refeição de um grupo de cães raivosos . Normalmente, teríamos de nos colocar de maneira que apanhássemos um bocado de esponja ainda intacta.
Os cintos de segurança, enrolados há anos por entre jornais velhos, pacotes de batatas fritas e correntes de ferro, naõ eram possíveis de serem utilizados. Mas os "homens" não precisavam de cinto...


À nossa frente, a visão alarmante de um tablier prestes a abater sob um monte de recibos e papeis, cobertos de pó canetas rebentadas e parafusos, reflectia-se no para-brisas estalado com selos desde 1976. As palas do sol, permitiam acondicionar mais uns quilos de papéis.
Com um estremecer violento durante alguns segundos, o motorista contorcia-se sobre a chave de ignição cerrando os dentes, esperando que o pastelão Perkins acordásse. Após terem caído para cima das pernas cerca de dois quilos de jornais amarelecidos que tombaram do tablier, uma torrente de fumo e um suspiro motriz característico anunciavam com uma voz autoritária que o lento e bruto motor tinha pegado.
Por detrás de uns meramente figurativos mostradores, procuravamos apontar o focinho sobressaído da carrinha, para a direcção que pretendíamos, embora tivéssemos que fazer conta á folga da direcção. Qualquer posição da manete das mudanças que escolhêssemos , servia para pôr a Transit em movimento. Seja como fôr, também não conseguiríamos saber qual delas tinhamos engrenado...


A Ford Transit, tinha sido feita para não ser reparada. Tinha sido feita para que a última vez que visse um concessionário Ford, fosse o dia da compra. Mas também não se justificava; Arames e paus há em todo o lado. Manutenção era uma palavra elaborada para descrever o acto de verter " a olho" um óleo ( qualquer) para dentro do motor.
quando uma Ford Transit precisava de uma "reparação", era sinónimo de que iria entrar numa nova fase da sua vida; A de servir de arrecadação até apodrecer. O que não demoraria muito.


Hoje, passados quarenta anos, a Frod Transit é um mero aglomerado de plásticos e componentes electronicos caríssimos,e apenas uma das muitas escolhas que alguém pode fazer no mercado, e o ceptro de Rainha do transporte ligeiro está entregue a um novo tipo de furgão, em que a Iveco Daily está fortemente posicionada.
Porem, o pó e os jornais continuam em alta, como decoração preferida do interior das FordTransit.


4 comments:

Dom Fuas. said...

Mais uma muito boa crónica que me levou, enternecidamenete ao passado, fazendo lembrar a Hiace do meu velhote, sempre com o tablier decorado com canetas, jornais e outros adereços, hoje descança na minha garagem reparada pronta para uma voltinha, pois a zona de mercadorias tem muitas recordações dos anos em que namorava.Aqui pla minha terriola ainda rolam Transit´s dessas que fala na crónica, igual á da foto com porta de correr só vi uma mas era importada...
Continua a fazer-me viajar no tempo com as suas crónicas, continuação de bons artigos.

markituz said...

Os meus parabéns!! Fez-me recordar situações do passado que já ha muito tempo não me vinham à memoria. O meu pai teve uma dessas diesel que comprou em segunda mão e que ainda lhe deu umas duas ou três voltas ao conta-quilometros (sabe-se lá quantas já tinha dado!!). Era realmente uma máquina fantástica. Depois de a ter vendido ainda a cheguei a ver uma vez ou outra mas depois desapareceu...
É o segundo carro de que tenho memória de andar, dpois de um 127, e é meu sonho ir à procura dela e trazê-la de volta a casa, nem que esteja a servir de galinheiro num quintal qualquer!!
Mais uma vez parabéns!

Sun_Tze said...

Curiosamente, aqui na empresa (de material de construção) temos uma Transit de 2000 (logo, 8 anos) que parece sair a sua avó, já que tem aguentado com toda a porrada que temos causado a mesma.

Um dos meus sonhos é mesmo recuperar uma Transit igual a essa para carro de passeio (vá, sejamos sinceros, entre um Mini para ir a um encontro, ou uma Transit, qual preferiam em conforto de passageiros? Eu preferia a Transit).

De resto, ainda a dias no parque de estacionamento do Oriente (o da Emparques, que criou o Grupo D. Elvira que junta os donos de classicos que guardam os seus carros nos parques dessa empresa) vi a Transit dos "puristas", a Taunus Transit, com aspecto de novinha em folha e que foi confundida por uma... Pão de Forma, já que só vi parcialmente a lateral antes de ver a frente.


Já agora, prezado amigo, para quando um artigo acerca da BL? Esses "assasinos" da industria inglesa de automoveis? :P

Mike Silva said...

Muito obrigado pelos vossos comentários, e como já perceberam, eu defendo que se deve olhar muito para além dos "MGS e dos Carochas", porque existem muitos veículos acessíveis que nos poderão proporcionar momentos fantásticos, e por vezes estão onde menos esperamos.

A Ford Transit, sempre foi olhada como uma mera caixa para transportar peúgas e sapatos para as feiras. Não pode ser!

Espero ter contribuído para que vejam neste modelo, um potencial clássico e um companheiro para toda a "obra".

E aposto que com um MG, ou um Mini, não conseguem fazer umas mudanças...


Agradeço também as vossas opiniões sobre o que gostariam de ver debatido, e o que têm a dizer sobre carros, motas e clássicos.

... Ou qualquer máquina que vos perturbe o espírito. Este espaço também é vosso, e garantidamente não ficam sem resposta.

Artigo sobre a BL? Boa sugestão! Vou trabalhar nisso...