Monday, 28 January 2008

O amor-ódio aos carochas

Não tenho nada a provar a ninguém em matéria de "Carochismo". Neste preciso momento, encerrados num local secreto em Portugal, tenho seis unidades desta "religião" á espera , ora de serem trazidos para Inglaterra, ora de serem "um dia" restaurados em Portugal...ou mesmo de me dar na telha e "despachá-los!"...

Fora as DEZENAS de outros que desmanchei para tirar peças, e as CENTENAS de outros que me passaram pelas mãos. Construí uma das vespas mais potentes do Mundo com um motor 1600, e recuperei uma pão de forma do estado de sucata,durante oito anos, que chegou a figurar no salão de vendas da RTM Alfragide no cinquentenário da Transporter em Portugal.

Andei anos e anos por encontros de Carochas, e conheço a fina flor da malta ligada ao meio.E por azar, eles conhecem-me todos a mim, por isso, tenho que "jogar" um pouco com as palavras aqui, se não se importarem.

Devo portanto, perceber uma coisinha ou outra sobre o assunto. O problema dos carochas, é que se fabricaram demasiados. Existem mais carochas que Fiats Uno e Citroen AX. Mas isso é mau. É mau, porque ao contrário dos AX, os carochas foram fabricados há mais de trinta anos. E isso na cabeça das pessoas torna-o num carro "antigo"...e dispendioso!

Como é um carro "antigo" e "dispendioso", os "organizadores" de encontros de carochas, acharam por bem subir em flecha as inscrições dos encontros, pensando que isso de "carro do povo", era uma historia da carochinha. Afinal o Golf e o Passat são caríssimos, porque razão não haveria o Carocha ser carro de "ricos"? Toca a gamar!

Como foi um carro muito fabricado, muitos modelos acabaram por cair nas mãos não de entusiastas, mas nas mãos de "papa-revistas", que acham "giro" ter um carocha. E por vezes estes "papa-revistas" tem a idéia de "organizar um encontro" de Carochas.

Como é que estes tenrinhos organizam um encontro de carochas? a) mandar um mailing a informar do local do encontro. b) subir, sem razão aparente, o preço das inscrições em relação ao ano passado em cerca de dez Euros. c) vestir uns coletes a dizer "organização " e ensacar a massa. Como o "carro do povo", continua em muitos casos a ser do povo, só os "Eng" e "Dr"conseguem pagar as inscrições dos encontros...e os doentes crónicos como eu, que deixam de comer para lá estar.

Só que chego lá, e encontro personagens a discutir quantos milhares gastarm na recuperação do carro, e nem uma pinga de "carochismo" como antigamente na Nazaré, ou em Loures. Apenas boçalidade novo-riquista.Um "fanático" desta organização lisboeta, decidiu mesmo desprezar numa conversa "estes carochas normais que há para aí ao pontape" apontando com desdém para um vermelhinho mal pintado, comparando-o com um VW 181 verde de um "Dr"...

Para esta malta, carochas significa apenas engraxar doutoures e engenheiros acerca dos seus exclusivos e dispendiosos Karmann e Cabriolets, para que eles continuem a vir aos encontros "largar" umas massas valentes. O carocha do entusiasta que fez um esforço para estar ali, vê-se subitamente orfão .Vê tudo entregue aos bichos. Esta malta imberbe não percebe o que custa manter em funcionamento um carro destes.

Mas este mal não é só dos carochas. Circula por toda a cena dos clássicos em Portugal. Tens um Mini, és de uma categoria "inferior". Tens um Jaguar? Ah, então já és um "coleccionador"...

Por isso, olho para a minha colecção de 1250 miniaturas de VW, e pergunto se não será melhor dar isto aos putos para eles partirem. Não me sinto muito confortável ter como paixão um carro eleito como preferido por boçais e oportunistas. Digam-me lá sinceramente se já viram algum New Beetle sem ser nas unhas de uma fulana privilegiada e loura?

Venham ver um encontro em Inglaterra! Gratuito, á sombrinha, com um picnic em que a malta trás de casa um farnel e estende a toalha atrás de um Rolls Royce, conversando com um amigo de um Minor ou de um Standard. Ou melhor, fazendo amigos.Sem elitismos. Sem peneiras. Sem senhor doutor para aqui, senhor engenheiro para acolá. Sem " O meu carro custou tanto, e gastei tanto".

Com cada um a trazer o que de melhor conseguiu arranjar, o seu modesto clássico. Para que todos o possam apreciar. E depois adormecer ao fresquinho ouvindo a banda Jazz do clube dos Ford Escort...

3 comments:

cadu1981 said...

cada vez gosto mais do meu Datsun 1200 ( ou do meu pai)

Mike Silva said...

Datsun 1200. Um rochedo de durabilidade a toda a prova. E o 120Y,claro...

nando007 said...

Caro Mike, hoje é dia de carnaval e como tal não vou ao trabalhar, mas não estava nas minhas previsões ficar á frente do computador, bem ...já vai em quase duas horas.
PARABÉNS !!! pela frontalidade que teve em tocar num assunto que não é só do club dos VW é também de outros clubs elitistas. A algum tempo atrás tive oportunidade de entrar num passeio organizado por um desses clubes monomarca e fiquei muito desapontado, não pelo pasei em si e por poder desfurtar do veiculo, mas pela atitude de tais DR e Eng, que nem, a história da marca conheciam.