Thursday, 19 November 2009

Jaguar E: Clássico para exibicionistas?




Nunca gostei muito do Jaguar E. Melhor dizendo, da "Cultura" que gira à volta do Jaguar E. Eu explico: Lá em Portugal, tenho uma amiga que é delegada de propaganda médica, que me diz que " se tivesse dinheiro", era um Jaguar E que comprava. Isto é preocupante, vindo de alguém cujo gosto pessoal de carros,passa por escolher entre um BMW série 3 ou um Renault Megane, tendo como parâmetros de escolha os espacinhos no tablier para meter trocos da portagem. Como o Megáne é "giríssimo", eis que os reboques da assistência na estrada têm agora mais um cliente para ir buscar à área de serviço de Oeiras com um tanque cheio de gasolina sem -chumbo 95. Um carro que diz em letras garrafais " Diesel" na bagageira...

Depois temos a malta do café. Sempre que davam aquelas reportagens no Telejornal, de malta com posses a passear num qualquer encontro caríssimo e exclusivo a bordo de calhambeques desengonçados, com música de Glenn Miller como pano de fundo, eles diziam " era um destes que eu queria".( Depois queixam-se da pouca difusão do panorama dos clássicos: Sempre com músicas a cheirar a mofo como banda sonora...)

"Já andaste num?"-Perguntava.
-"Não, mas mete estilo..."- classificavam.
-" Tem doze cilindros". Mas também um camião da TIR e um barco da Transtejo...

Mete estilo... O problema, é que eu também nunca tinha andado num. Quero dizer, andado, tinha, mas era sempre com um dono de cachimbo ao lado, a apontar-me com os óculos ( Ou "o óculos"), para o conta-rotações para não passar dos 3000,porque senão tinha de vir uma peça " de Inglaterra" que não havia. Qualquer tentativa para "apertar com o bicho" na A5, era sempre desaconselhada,por causa de uma afinação ou de uns pneus caros que tinham vindo " de Inglaterra".






Para mim, em suma, o Jaguar E sempre foi uma peça cara de museu utilizada por pessoas com dinheiro que pouco percebem de carros, para meter "estilo" a pessoas com falta de dinheiro que não percebem de carros.
Andou sempre tudo à volta de gostar de um carro sem muito bem saberem porquê. Ver um Jaguar E a acelerar " como deve de ser" sempre foi uma utopia e ficção científica. Como Portugal ter um Governo decente,por exemplo.Entretanto eis que descubro em Inglaterra um Jaguar E , e uma pista. Sem restrições. Sem "olhe que o friso do tejadilho se se perde, tem de vir de Inglaterra"... Estamos em Inglaterra,por isso, que se lixe. Pela primeira vez podía ver afinal o que era isso do Jaguar E. Como proprietário, em vez de um executivo de cachimbo, tinha alguém que me dizia " Desculpe não ter cinto de quatro apoios, tenha cuidado...". Ia guiar um Jaguar E-Type, que até tinha umas jantes e pneus para andar "mais à vontade", guardando as de raios para ir passear a fumar cachimbo.

Esqueci-me que este carro era inglês, e não americano. Na minha cabeça, um Jaguar E-Type seria uma espécie de "tábua com um motor", apenas um desenho belíssimo assente numa mecânica obsoleta, capaz de profundas acelerações a direito, mas traiçoeiro e desajeitado nas curvas. Rapidamente deixei caír o maxilar, ao aperceber-me de como pouco afundava num percurso de "slalom". As generosas dimensões do "E-Type, seguras de uma forma autoritária por um chassis que mistura o monobloco com uma estrutura multi-tubos,fazem perceber porque é que o Mundo ficou espantado quando apareceu o "E". Por mais que provoque o "gato", ele rí-se alarvemente das minha tentativas para o domesticar, e avisa-nos: O respeito pela maquinaria impôe-se e o Jaguar ameaça cravar-nos os dentes se pusermos o pé em ramo verde. O capot a levantar, o barulho de "caça" inglês a descolar para a batalha e o conta-rotações a subir de um modo obsceno, fizeram-me ranger os dentes e cerrar os punhos com força em volta do volante. Foi mesmo disto que o médico me receitou!







Acelerando com um silvo metálico quase bélico, e vendo apenas a saída de ar do capot no bordo junto ao para-brisas, eis que o "E" se catapulta empurrado por uma "primeira"propositadamente longa. Sinto-me envolto em tecnologia inglesa. Como se estivesse no interior de um motor "Merlin" ou no compartimento das bombas de um Vulcan. Os mostradores "Smiths" delicadamente apontam-me o comportamento, como um professor a mandar um aluno para o canto da sala com um simples abanar de cabeça. A resposta dos travões é surpreendentemente eficaz, detendo o "E" quase a pique, sem fadiga de maior. Excepto,talvez para os pneus.

A Jaguar foi a primeira marca, em 1958, a adoptar travões de disco de série nos seus modelos. O feeling a bordo é extraordinário, e o "pedigree" desportivo herdado dos XK e dos " D-Type" permanece intacto.Estou num Jaguar E-type, um dos mais emblemáticos carros da marca e da História do Automóvel. Um puro -sangue. Que carro impressionante. Inacreditável. Mais uma curva apertada, com o piso molhado a deixar agradavelmente " fugir" a traseira, e a frente a corrigir imediatamente com uma contra-brecagem perfeita. Magnífico. Outra curva agora para o outro lado. Agora uma pisadela no acelerador para ouvir aqueles três carburadores SU " Side-draught" a assobiar. Após uma sessão de dez minutos, saio dificilmente como entrei, para sentir o aroma misto de gasolina e metal quente a crepitar por debaixo do capot, emanando como uma fragância por entre as entradas de ar.





Os engenheiros não estiveram a fazer "isto" para andar a 30 a fumar cachimbo...


Como é possível um carro destes passar-me despercebido durante todos estes anos? Estes carros não são possívelmente adversários para os "racers" de hoje.E depois? Ninguém compara Pink Floyd com Eminem. Como ícone que marcou uma época, o " E" permanece incólume e a angariar cada vez mais seguidores. Embora muitos deles continuem a optar por os ter na garagem e ir apenas a encontros esporádicos fumar cachimbo.Mas nada podemos fazer quanto a isso, porque a perda é deles...

5 comments:

Andre said...

Mais uma crónica fantástica... Parabéns.

Andre said...

Já agora... Se algum dia tiver a oportunidade de passar pela minha cidade Natal, Peso da Régua, terei todo o prazer de o acompanhar numa vista pela região do Douro, o Mike no Pão de Forma e eu a acompanhá-lo no meu Seven (do qual pretendo ser um dono sem dó, com viagens longas)... Um abraço, André Araújo

MOTARTE said...

Já tinha ouvido falar muito bem dele no "Top Gear"...

Excelente relato! ;)

Terminal Rodoviario said...

Aqui na minha zona há um igual que se passeia regularmente, fazendo-se acompanhar de um Dino...

E verdade seja dita, este tem muito mais classe que o Italiano !!!

Bruma said...

Independente dos aspectos mecânicos... e falando de estilos... também eu não gosto do seu aspecto exterior!!!
E mesmo eu que não sou entendida no assunto... acho que existem viaturas bem mais interessantes!

Bjitos e um bom fim de semana!