Tuesday, 10 November 2009

Quando o Futuro morreu...

O fabuloso Concorde que fez sonhar gerações...


Quando, a 24 de Outubro de 2003, o Comandante Mike Bannister aterrou pela última vez um Concorde em Heatrow vindo de New York, exactamente ás 1605, proferiu entre lágrimas e voz tolhida pela emoção a célebre frase" A partir de hoje, o Mundo é um lugar maior".
O fim da operação comercial do fabuloso avião em forma de Delta, capaz de ligar a Europa à América em pouco mais de duas horas, deixou a Humanidade surpreendida e apreensiva: Mais do que o fim de uma carreira de 27 anos de uma aeronave de excepção, a mensagem clara de que o progresso e o desenvolvimento poderiam retroceder a qualquer momento, eram uma ameaça real. Hoje um avião, amanhã o desenvolvimento de uma vacina,por exemplo.


Melhor do que um Concorde...


Dinheiro. Com um custo de operação comum a um avião supersónico de 10 Milhões de Libras por ano por aeronave, a rentabilidade do Concorde sempre foi uma dor de cabeça tanto para a Air France, como para a British Airways, as duas únicas companhias que operaram o Concorde durante a sua existência. Apesar dos preços proibitivos e exclusivos de uma viagem London-Ney York, ambas as companhias mantiam com esforço as aeronaves como porta-bandeira de países desenvolvidos. A crescente crise mundial , e o acidente em 2000 na descolagem em Paris que vitimou todos os ocupantes, ditaram o fim do avião de passageiros mais rápido alguma vez construído.

Uma saudade que deixa a Aviação e a humanidade mais pobre


As origens do Concorde,remontam a 1956, quando o Supersonic transport aircraft comitee ( STAC) foi criado para estudar a eventualidade de criar um avião de transporte supersónico de passageiros. Não era fácil: Criar um avião que aguentasse as extremas pressões de operação com passageiros a bordo não equipados com fatos especiais, e capaz de efectuar vôos entre continentes com um orçamento próximo de um lançamento espacial, eram coisa praticamente impossível, nos tempos em que transporte aéreo de passageiros era sinónimo de DC6 ou de Super-Constellation com motores radiais de pistons.

Em 1962, Charlles de Gaulle propôs a colaboração entre França e Inglaterra, porque nenhum dos dois países tinha fundos suficientes para levar a cabo semelhante projecto. As empresas inglesas Rolls-Royce e Bristol Siddeley fabricariam os potentes motores em conjunto com a francesa Snecma. Em 1964, uma pequena versão chamada de "Concord" voou para demonstração, embora o "francesismo" tornasse o aparelho conhecido por "Concorde", acrescentando um "E" que os ingleses aproveitaram para explicar como significando "England" , Europe", e " Excelence".


Se estas imagens não fazem a pulsação subir, você está clinicamente morto...

Em Abril de 1969, voou pela primeira vez o Concorde 002, de origem inglesa, um mês depois dos ensaios em pista do 001, de origem francesa. O primeiro aparelho comercial saiu da linha de montagem de Filton em 1971, e rapidamente o aparelho foi mostrado em todo o Mundo . A China e os Estados Unidos, estaríam entre alguns dos interessados, mas o acidente com um Tupolev 144 russo, aeronave similar alcunhada de "Concordsky", e a legislação de ruído americana puseram um travão na aquisição de algumas unidades Concorde.


Uma beleza de fazer parar o trânsito...


Para provar o potencial de um Concorde, tal como um teste automóvel, foi feita uma "corrida entre um Concorde e um Boeing 747 no ano de 1974. O Boeing sairía de Boston em direcção a Paris, e o Concorde faria o trajecto no sentido oposto. O Concorde aterrou em Boston, esperou durante 68 Minutos no solo, e levantou vôo novamente em direcção a Paris, chegando 11 minutos ANTES do 747! O Mundo ficou rendido ao Concorde...





Uma corrida que o Concorde afinal perdeu...



No final dos anos setenta, o governo britânico anunciou que não financiaria mais a Rolls-Royce nem a British Aerospace. Em 1983, um Concorde fez a travessia mais rápida entre New-York e London, com 2 horas e 55 minutos. A partir de 1984 a British airways ficou encarregada do financiamento da parte inglesa do projecto. A 25 de Julho de 2000, o Concorde de matrícula F-BTSC despenha-se na descolangem vitimando 109 passageiros e tripulação e quatro pessoas no solo.


Apesar deste acidente, o Concorde foi a aeronave mais segura alguma vez posta a voar. Em 27 anos de carreira, apenas uns problemas de vidros partidos e defeitos menores no controle do leme de direcção. A história do Concorde entristece-nos, porque faz-nos sentir mal por termos nascido fora de um país e época onde era possível observar semelhante aeronave em vôo. Visitar actualmente o museu de Duxford, ou o Aeroporto de Manchester, onde se encontram dois aparelhos abertos ao público, é como visitar um mausoléu ou uma campa. O Futuro e o desenvolvimento morreram um pouco no dia em que retiraram de serviço semelhante máquina dos céus. Como Pai, é-me difícil explicar aos meus filhos que um dia, voava-se entre dois Continentes em menos de três horas, e hoje demora-se seis a sete. "Porquê"? -Perguntam-me. Não sei responder...



Pássaro de alumínio? Concorde...


Nem sei responder também, porque suspiro quando olho para linhas tão belas. As mais belas jamais desenhadas para um avião, se me perguntarem. Pensem no termo "pássaro de alumínio" e reparem na extrema parecença com uma foto do Concorde. Pode ser que um dia, o mito renasça das cinzas. Porque será que guardam um único Concorde em Manchester pronto a voar?


Guarda de Honra dos Red Arrows no último vôo



Na memória dos Homem, a breve passagem terrena deste sonho da Aviação que foi o Concorde, ficará gravada pelos mais diversos motivos. Na de um miúdo português nos anos setenta, a memória de ouvir o tema " Concorde " da orquestra de Franck Pourcel ( Disponível no Youtube), e a olhar para a imagem da capa do LP sonhando que um dia faria do vôo a minha ambição e modo de estar na Vida.


Obrigado Concorde. Descansa em paz...



Para ouvir até perder os sentidos: http://www.youtube.com/watch?v=AfGVAalCwwE

2 comments:

Castanheira said...

Excelente post!

Blackbird said...

O meu pai ainda deve ter lá em casa esse disco! Lembro-me muito bem desta música!

Obrigado pela recordação!

Davi "Blackbird" Carvalheiro