Thursday, 31 January 2008

Cortesia ao volante: A um passo da felicidade

Todos nós gostamos de quando um carro abranda para nos dar passagem. Com um breve aceno ou um ligar fugídio dos quatro piscas, agradecemos a essa alma que permanecerá no anonimato para todo o sempre. Nunca mais teremos chance de um dia o convidarmos para um café, e dizer : "Obrigadinho por me ter deixado passar naquele dia".

Mas os ganhos sociais são imensos. Por momentos, interrompemos os nossos pensamentos para , subliminarmente concluirmos que a esperança e as coisas boas ainda existem. Que nem tudo está assim tão mau. Que por breves nanosegundos, encontrámos uma alma que esteve em sintonia com as nossas dificuldades e fez algo para mudar isso.

Por outro lado, a pessoa que deixa passar, não espera por esse tal cafézinho, embora secretamente o anseie se por acaso o carro que deixou passar foi um descapotável com uma loura ao volante. Fica apenas com a boa sensação de que , como pessoa, é capaz de proporcionar bem estar.

Isto pode parecer filosofia ensaísta inconsequente, mas se pensarmos que passamos uma importante parte do dia ao volante, e se multiplicarmos isto por um sem número de oportunidades em que podemos escolher o nosso comportamento, se calhar interessava pensar um bocado acerca do que é que podemos ganhar em sermos cortêses ao volante.

O aceno vigoroso seguido de um acender de máximos de um camião da TIR que lutava por inverter a marcha numa rua movimentada, graças a termos parado e bloqueado o transito nessa faixa, são um bálsamo poderosíssimo que podemos guardar durante todo o dia. O melhor reconhecimento que podemos ter, é sabermos que fizemos algo de útil para outrém.

Receio que estas palavras ecoem na cabeça algo perturbada de, por exemplo, um proprietário de BMW. Os proprietários de BMW, são por definição indivíduos egocêntricos que na incapacidade de se destacarem pelos seus actos, tentam fazê-lo exibindo aparelhos de lata e plástico futurísta estupidamente caros fabricados na Alemanha com componentes indianos.

O proprietário de BMW e afins (PBMWA), só precisa de uma mão para guiar, porque a outra está permanentemente ao télemovel. O PBMWA, pensa que o respeito é unilateral e convergente á sua pessoa. Como se respeito e poder se pudesse comprar na Baviera. O PBMWA, enerva-se solenemente por o progresso andar a passo de caracol, e ainda não ser possível guiar sem olhar para a estrada, e o carro não travar sozinho.

O PBMWA, quando atropela uma criança ou um idoso, por circular a cento e quarenta pelo meio de Campo de Ourique, ainda demora uns minutos para sair do carro, pois está a terminar uma chamada. O PBMWA, enerva-se solenemente por toda a gente utilizar a via pública, especialmente camioes, pessoas , bicicletas, autocarros, e motos. E carros mais baratos. Basicamente, o PBMWA julga que a soma astronómica de dinheiro com que foi roubado a sangue-frio, quando adquiriu o automóvel, lhe dá plenos poderes e direito de aquisição sobre todas as faixas da esquerda em Portugal. Garante que isso deve estar escrito em algum lugar dos papeis que lhe deram no stand...

Todos nós , quando não somos corteses ao volante, somos como os PBMWA: Uns frustrados malcriados egocêntricos e perigosos que nunca hão-de ter paz de espírito. Dormem com o "Blutute" na orelha, e tudo. Não tomam banho, porque isso os faz perder tempo.

Os ganhos estrondosos em termos de bem-estar e de sentirmo-nos realmente como parte de uma sociedade que procura um amanhã melhor, tem de ser experimentados, para serem percebidos. Amanhã, quando vir aquele Corsa velhinho a tentar sair da praceta, ou um puto a tentar atravessar a estrada para ir para a escola, dê-lhe uma hipotese! Verá que o seu dia vai correr lindamente...

Se vir um BMW, ignore e acelere! Ele faria o mesmo! Deixe -o lá ficar a enervar-se mais um bocadinho.

( Dedicado ao estúpido que em 02 de Agosto de 2007, por volta das dez da manhã, se despistou em Campo de Ourique ao volante de um Série 3 preto , enquanto atendia uma "chamada importante", atropelou duas pessoas, e destruiu uns carros estacionados...)

Comendo triângulos

Esta é uma homenagem a uns certos utilizadores da estrada algo incompreendidos e quase sempre esquecidos...



O dia começa quase sempre muito antes de toda a gente. Dia após dia, os motoristas profissionais são largados em "território inimigo " a contra-relógio, tripulando aparelhos com largas centenas de milhar de quilómetros e feridas de "guerra" na carroçaria.

Dia após dia, estes veículos não conhecem o significado de circular prudentemente, pois algures, alguém está á espera de algo, urgentemente. Sejam medicamentos, fruta, assistência , ou peças. As mudanças de velocidade assemelham-se a bastões brandidos pela Polícia numa manifestação, com movimentos repentinos e brutais. Há que conseguir colocar -nos antes do AX guiado pelo idoso, para poder chegar ao outro cruzamento antes que o sinal feche.

Como mesa de escritório, um empoeirado tablier marcado com pegadas dos ajudantes de motorista, aprendizes de palavreado foleiro de um qualquer Fernando Rocha, e jornais velhos comprimidos entre o pára-brisas. O rádio, a debitar uma estação qualquer ao calhas, daquelas que passa a mesma música de dez em dez minutos, perde sinal no túnel das Amoreiras. Para ressuscitar de novo frente ao Marquês, com um cantarolar piroso da Romana.

Estes veículos não têm conta-rotações, porque seria demasiado doloroso assistir ao destruir sistemático da mecânica. Mesmo jovens furgões de matricula actualizada, qual meretriz tailandesa, apresentam já marcas indeléveis de abuso e brutalidade por todo o corpo.

Reféns de horários apertados e rídiculos, os motoristas profissionais desdobram-se em proezas perigosas sustentadas por estúpida e inexplicavelmente potentes e velozes furgões. Ninguém consegue "competir" com um desses novos macro-furgões , esses gigantes brancos propulsionados por nitroglicerina que são as Sprinters, numa auto-estrada. A Brigada de trânsito deveria de adquirir Sprinters, em vez dos "lentos" Impreza...

O motorista é uma pessoa sozinha e solitária. Muitas das vezes, nem parar pode, devido aos horários, e engole em andamento um desses triângulos a que ternamente chamam de sandes, das áreas de serviço, regada por um refrigerante qualquer, e umas batatas , que se acabam sempre por espalhar no banco do pendura. Chamadas da Natureza, são resolvidas com recurso a expedientes pouco narráveis , em fracções de segundo, pois pode aparecer alguém.

O telemóvel, esse monstro doentio que sequestra a nossa paz, toca de cinco em cinco minutos, apesar de quem telefona saber que é proibido atender em andamento. Mas tudo é mais importante do que a Lei, desde alfaces a discos de embraiagem para entregar em Loures. Por isso, o motorista entra na era da ficção científica adquirindo um desses auriculares pirosos que "enche" a orelha toda com cromados e luzinhas, a que chamam de "Blutute". Genuínamente, pensa que a sua imagem e Sex-appeal saem melhorados por pendurar aquela parvoíce na orelha.

Em manobras capazes de fazer Fernando Allonso deitar as mãos à cabeça, embates violentos são evitados no último segundo, seguidos de um insistente espasmo muscular sobre a buzina, acompanhado por adjectivos pouco sociais gritados pela janela, ou por movimentos utilizando os dedos. E a rádio interrompe a Monica Sintra para dar as notícias, de que os impostos vão subir, e o poder de compra baixar. Entretanto as embalagens vazias dos triângulos, são atiradas para o chão lado do pendura.

No final do dia, há que esquecer a celebração de ter escapado ileso, e procurar desafiar o trânsito de hora de ponta, para finalmente voltar a casa. Cedo, bem cedinho, o motorista profissional terá de pegar no seu Spitfire urbano, e ir combater uma batalha que lhe permita conquistar um mundo melhor .

Monday, 28 January 2008

O amor-ódio aos carochas

Não tenho nada a provar a ninguém em matéria de "Carochismo". Neste preciso momento, encerrados num local secreto em Portugal, tenho seis unidades desta "religião" á espera , ora de serem trazidos para Inglaterra, ora de serem "um dia" restaurados em Portugal...ou mesmo de me dar na telha e "despachá-los!"...

Fora as DEZENAS de outros que desmanchei para tirar peças, e as CENTENAS de outros que me passaram pelas mãos. Construí uma das vespas mais potentes do Mundo com um motor 1600, e recuperei uma pão de forma do estado de sucata,durante oito anos, que chegou a figurar no salão de vendas da RTM Alfragide no cinquentenário da Transporter em Portugal.

Andei anos e anos por encontros de Carochas, e conheço a fina flor da malta ligada ao meio.E por azar, eles conhecem-me todos a mim, por isso, tenho que "jogar" um pouco com as palavras aqui, se não se importarem.

Devo portanto, perceber uma coisinha ou outra sobre o assunto. O problema dos carochas, é que se fabricaram demasiados. Existem mais carochas que Fiats Uno e Citroen AX. Mas isso é mau. É mau, porque ao contrário dos AX, os carochas foram fabricados há mais de trinta anos. E isso na cabeça das pessoas torna-o num carro "antigo"...e dispendioso!

Como é um carro "antigo" e "dispendioso", os "organizadores" de encontros de carochas, acharam por bem subir em flecha as inscrições dos encontros, pensando que isso de "carro do povo", era uma historia da carochinha. Afinal o Golf e o Passat são caríssimos, porque razão não haveria o Carocha ser carro de "ricos"? Toca a gamar!

Como foi um carro muito fabricado, muitos modelos acabaram por cair nas mãos não de entusiastas, mas nas mãos de "papa-revistas", que acham "giro" ter um carocha. E por vezes estes "papa-revistas" tem a idéia de "organizar um encontro" de Carochas.

Como é que estes tenrinhos organizam um encontro de carochas? a) mandar um mailing a informar do local do encontro. b) subir, sem razão aparente, o preço das inscrições em relação ao ano passado em cerca de dez Euros. c) vestir uns coletes a dizer "organização " e ensacar a massa. Como o "carro do povo", continua em muitos casos a ser do povo, só os "Eng" e "Dr"conseguem pagar as inscrições dos encontros...e os doentes crónicos como eu, que deixam de comer para lá estar.

Só que chego lá, e encontro personagens a discutir quantos milhares gastarm na recuperação do carro, e nem uma pinga de "carochismo" como antigamente na Nazaré, ou em Loures. Apenas boçalidade novo-riquista.Um "fanático" desta organização lisboeta, decidiu mesmo desprezar numa conversa "estes carochas normais que há para aí ao pontape" apontando com desdém para um vermelhinho mal pintado, comparando-o com um VW 181 verde de um "Dr"...

Para esta malta, carochas significa apenas engraxar doutoures e engenheiros acerca dos seus exclusivos e dispendiosos Karmann e Cabriolets, para que eles continuem a vir aos encontros "largar" umas massas valentes. O carocha do entusiasta que fez um esforço para estar ali, vê-se subitamente orfão .Vê tudo entregue aos bichos. Esta malta imberbe não percebe o que custa manter em funcionamento um carro destes.

Mas este mal não é só dos carochas. Circula por toda a cena dos clássicos em Portugal. Tens um Mini, és de uma categoria "inferior". Tens um Jaguar? Ah, então já és um "coleccionador"...

Por isso, olho para a minha colecção de 1250 miniaturas de VW, e pergunto se não será melhor dar isto aos putos para eles partirem. Não me sinto muito confortável ter como paixão um carro eleito como preferido por boçais e oportunistas. Digam-me lá sinceramente se já viram algum New Beetle sem ser nas unhas de uma fulana privilegiada e loura?

Venham ver um encontro em Inglaterra! Gratuito, á sombrinha, com um picnic em que a malta trás de casa um farnel e estende a toalha atrás de um Rolls Royce, conversando com um amigo de um Minor ou de um Standard. Ou melhor, fazendo amigos.Sem elitismos. Sem peneiras. Sem senhor doutor para aqui, senhor engenheiro para acolá. Sem " O meu carro custou tanto, e gastei tanto".

Com cada um a trazer o que de melhor conseguiu arranjar, o seu modesto clássico. Para que todos o possam apreciar. E depois adormecer ao fresquinho ouvindo a banda Jazz do clube dos Ford Escort...

Mas quem sou eu para estar aqui a falar sobre carros?

Não! Não estou aqui a escrever sobre automóveis porque tenho um Saxo com um ailleron na traseira, nem porque costumo babar-me para cima das revistas que falam de cilindradas e potências como quem barra um pão com manteiga.

Nem tampouco porque desejo ser politicamente correcto, e dizer aquilo que toda a gente já está acostumada a ouvir . Pérolas do tipo : " Com a qualidade habitual no grupo Volkswagen" ( Rir), ou " Os acabamentos neste modelo revelam a extremo cuidado posto na construção..."

Não. Nada disso. Se era isso que esperavam, podem continuar a ir á área de serviço comprar aquelas revistas decalcadas de números internacionais, traduzidas á pressão para agradar o " Manuel do Civic", e os putos do bairro que sonham com a Vasco da Gama...Não estou aqui pra agradar ninguém, nem colocar o meu pensamento a soldo de nenhum interesse.

Eu trabalho em automóveis, desde praticamente que me conheço. Comecei a aprender os nomes dos modelos e das peças, mesmo antes de ir para a primária. Quando entrei no primeiro dia de aulas, já sabia ler perfeitamente a " Auto Mundo".

Para fugir ao flagelo da droga, que clamou muitas vidas também na Margem Sul, o meu pai colocou-me a aprender o ofício na oficina do "Du", e do "Espanhol" De maneira que , com doze anos, comecei a lavar peças da maioria dos carros que agora são considerados clássicos. E a guiá-los, também, até ao dia em que a Policia me veio escoltar com o seu Peugeot 404 carro-patrulha até ao portão do "Espanhol" ..." Ó chefe! não deixe o puto conduzir! "

Após duas décadas de Bombeiros , especialista da Força Aérea, mecânico de marca e como técnico do ACP , achei melhor pegar no meu curso e vir para Inglaterra lidar com automóveis clássicos, porque em Portugal, só podia ir ao Estoril se fosse filho de alguém conhecido. Em Portugal, restava-me umas provas de AX e Ford Fiesta, e mesmo assim lá estava o Securitas no túnel a perguntar se eu tinha credencial...

Mal cheguei a Inglaterra, o meu novo patrão diz-me com um ar preocupado que tem de me manda um mês para Chichester, no sul de Inglaterra para tirar um curso na Rolls-Royce! Que maçada!...Aqui estava eu perdido em Inglaterra , o pais do automóvel clássico, com 1001 autódromos e pistas de aviação desactivadas, abertas ao público de um modo fraterno. Silverstone, Oulton park,Goodwood, Donington e Anglesey tornaram-se numa espécie de "ir ao Colombo" ao fim-de-semana. Sem o Securitas com um transmissor a deixar entrar apenas a "Micá", e o " Sebastião Vasconcelos e Sá".

Assim, entre viagens aos EUA e França, tenho convivido de perto com ícones fortíssimos do mundo automóvel, bem como as suas mais importantes figuras. um dos episódios mais marcantes , foi a possibilidade de ter "conduzido" devagarinho um Bugatti Veyron, o ano passado em Goodwood com um engenheiro da VW. E ter conhecido pessoalmente Sir Stirling Moss. E Jeremy Clarkson. E Stig Blomqvist. E Michelle Mouton,Lewis Hamilton, Keke Rosberg, Richard Petty, Hannu Mikkola, Mika Hakkinen, Rauno Altornen,e...

Quando falo sobre automóveis, podem ter a certeza que já esmurrei os nós dos dedos em muitas bombas de água, já me esfreguei tardes intermináveis por baixo deles a tentar desmontar uma caixa de velocidades, a berrar asneiras de fazer corar o Fernando Rocha, porque o martelo escapou, ou porque um parafuso "moeu",e sobretudo que continuo a encará-los como uma importantissima parte da nossas vidas, a maravilhar-me com um produto que consegue reunir num só corpo, as maiores descobertas da humanidade como a roda, o fogo, a electricidade , a fisica e a quimica.

Bem vindo ao Blog sala das máquinas, coordenado a partir de Inglaterra.

PS: Ah, já agora, tenho doze horas de voo em Robinson R22...