Sunday, 6 April 2008

As fabulosas oficinas de Duxford

Blackbird SR 71
Sabem o que me apetecia fazer? Era atar um destes motores a um Renault 4 e ir para a "Vasco da Gama" com um telemóvel... ( Hey, I,m only joking here!...)




Um Gloster Gladiator de 1938 reparado ao milímetro! Não ficou peça sobre peça!






Existe um lugar, onde as gloriosas máquinas voadoras de outrora são recuperadas ao milímetro, para regressarem aos céus. Tudo feito por voluntários e entusiástas...

Não há necessidade de falar muito sobre isto, as imagens com legendas falam por si. Estas oficinas estão abertas ao público, que apenas tem de ter cuidado com os trabalhos a decorrer, e com algum barulho estranho, como um Spitfire sem colector de escape a ser testado.





O primeiro concorde do mundo a voar, está aqui, e pode ser visitado.








No caso de estarem a perguntar, sim, cheira um pouco a mofo...



Um Vought Corsair F4U da marinha dos EUA, em testes. Um dos poucos na Europa em condições de vôo.






Um Mil Mi 4 " Hound" soviético trazido do Afeganistão nos anos oitenta. Está à espera de "vez" na oficina...








Brincavam com "Legos" quando eram putos? Então isso basta para trabalharem como voluntários em Duxford...




Uma vez recuperados, estas aeronaves fazem vôos de recreio para visitantes.Eis um deHavilland Rapide de 1936.( Com dois motores de automóvel!)




Este irá ser o único Handley Page Victor a voar no mundo. Actualmente, a ser vistoriado por técnicos da Rolls Royce e da RAF...À borla!





Sim, mais "Legos" para montar...um MIG russo! Voluntários precisam-se...








Espaço para guardar um B-52? Ora, ponham-no alí ao pé do SR71, ao lado do B-29! Já agora,deixa cá ver o porão das bombas...

Saturday, 5 April 2008

A fauna que gira á volta dos encontros de clássicos

Eis algumas "espécies" com que temos de lidar quando levamos o nosso carro a um encontro de clássicos:

( Copyright de Mike Silva)

A Gestapo dos parafusos

São indivíduos gordos de bigode, ou rapazinhos bem vestidos com sapatinho de vela da moda, de mãos atrás das costas com as chaves do carro a balouçar entre o telemóvel.Dão pontapézinhos nos pneus, coçam o nariz, e descobrem sempre um escorrido de tinta debaixo do para-choques. Não largam um carro da mão, enquanto não descobrirem uma falha, para poderem dizer que também pertencem "ao meio" e são "conhecedores"...( Ver também : Os " Eutenholáemcasa")

A polícia do betume e dos rebites

É a versão mais "Chunga" da Gestapo dos parafusos, normalmente constituída por malta que viu os carros a estacionar, e sairam do café onde estavam a ver a TVI para vir ver os "carros velhos".Normalmente usam chinelos e mangas cavas,e decidem procurar com afinco qualquer coisa que lhes pareça mal, para poderem dizer ao Ti Alfredo da Bóina que também percebem do assunto. Além de uma eventual Zundapp que tenham possuído, nada os relaciona com o mundo dos clássicos. Costumam berrar frases como "Ena pá, isto está tudo mal pintado" ( Porque viram um risco na embaladeira) ou " Este carro está todo mal recuperado!" ) Porque viram uma lasca no espelho)

Os Eutenholaemcasa

Os eutenholaemcasa ( ETLEC), são aqueles gajos de óculos escuros e olhar fugidio que iniciam conversa dizendo " Também tenho um destes lá em casa, enquanto desviam o olhar para o horizonte e coçam a cabeça. Os ETLEC, dizem isto mesmo ao proprietário de um Rolls Royce Mulliner Park Ward MKIII EC de 1936 . Mas vieram à pendura, ou têm um Mini com a inspecção caducada. Os ETLEC, não só têm um "destes" lá em casa, como se encontra em melhor estado. A desculpa em 99.9 por cento das vezes, é que está a " recuperar" .Por vezes, os ETLEC sabem " de um destes" que está num barracão , há muitos anos, e que está em melhor estado. Por vezes, até existem DOIS nesse barracão.

O Melga

O Melga, é o velhote de bóina que começa a descrever círculos á volta do carro, e a rir-se para nós. Quando vir este cenário, já sabe que se seguem conversas da tropa e do tempo quando andava a namorar a ti Adelaide, e quando esteve em Angola. O Melga vai perseguí-lo o dia todo, a explicar como reparou um guarda -lamas em Lourenço Marques em 1965. Mesmo que procure refúgio na barraca das bifanas. O Melga, pegará em toda a resposta que der, e procurará exemplos exaustivos acerca do assunto. Por exemplo, se responder " Sim, já tive um Mini", o Melga irá gritar e apontar,de cada vez que se cruzar com um. " -Ó chefe, já viu este?"

O Engenheiro

O engenheiro,conforme a moda actual, não precisa de o ser. Basta aparecer um pouco despenteado e gordo, com um sorriso "cá da malta",e uma roupita assim mais carota. É o espécime que é recebido efusivamente pela organização,como se fosse um familiar que não viam há vinte anos, por ter trazido o seu exclusivo modelo de clássico. Não importa que cem participantes-pagantes tenham trazido o que de melhor puderam trazer, pois a atenção e o lugar próximo da "mesa" da organização, vai para o " engenheiro" que trouxe o carro mais caro/exclusivo do encontro.

Não é de esperar confraternizar com " o Engenheiro", porque ele estará ocupado a expandir o seu ego, bebido sofregamente pela organização, que julga que o sucesso do encontro acontece porque " o engenheiro" ali resolveu vir. A organização, passa o dia inteiro com " o Engenheiro", e bloqueia a caravana dos participantes para que " o engenheiro" possa ser o segundo carro na fila.

O organizador da treta

O organizador da treta ( ODT ) , é o indivíduo (ou o conjunto de indivíduos) que se vê aos espelho pela manhã com um colete laranja a dizer " organização", e se sente realizado. O ODT mete a família a distribuir papéis e porta-chaves aos participantes,e a receber a "massa" ( Ora bem! Isto é que importa, e é por isso que lá está...) enquanto busca no horizonte algum "engenheiro" ou carro mais vistoso/ caro.

O ODT, não se maça com promenores tais como setas a indicar o local, ou informações. Ele está ali para engraxar o(s) engenheiro(s) que decidam aparecer. Como programa, o ODT oferece um passeio que não raro passa em frente ao seu negócio, ou de alguém que patrocinou as T-shirts para o encontro. À hora do almoço, o ODT põe um mero porco a assar, e a malta que se amanhe. Que o asse, que o corte, e que o coma. Como resultado, um monte de moscas , filas intermináveis de seres a segurar um prato de papel, e o caos generalizado resolvem aparecer para almoçar também.

Ou então, marca 200 lugares no restaurante " A toca",que só tem 46, e a malta acotovela-se por hierarquia do custo dos carros. Sentar um "engenheiro" com um Jaguar ao pé do Zé Manuel do Mini? Nem pensar! Depois, é só esperar uma hora pelo "tacho"...

O ODT, apercebe-se à última da hora que costuma haver entrega de prémios nos encontros, e vai sorrateiramente à bomba de gasolina mais próxima comprar uns carrinhos de brinquedo para oferecer ao "participante vindo de mais longe", e ao " mais idoso". Normalmente, é "o Engenheiro" que leva os carrinhos para casa...

No fim, está sempre " de parabéns", mesmo que tenha sido malta a pagar e a trazer os carros. E mesmo que o encontro tenha sido uma porcaria.


( Esta é uma obra de ficção.Qualquer semelhança com a coincidência, é pura realidade)










Wednesday, 2 April 2008

Os criminosos da Vasco da Gama

Tudo o que se tem dito acerca desta malta, peca por defeito. Eu não vou estar aqui a acrescentar mais nada a este assunto que de tão debatido caiu no ridículo. Queria só deixar aqui a minha opinião.

Falar sobre "carnificina" e "irresponsabilidade", já perdeu o impacto. Sobre "civismo" e sobre "Educação", faz as pessoas rir. Por outro lado, toda a atenção e destaque que se dê a estes criminosos, só vai piorar as coisas. Vai dar mais alento á chusma de putos de bairros periféricos que vivem em casa dos pais e que nem comem para ter um Civic ou um Ibiza, para pegarem nas rapariguinhas desmioladas e nuns telemóveis e irem tentar a sorte na VDG ( Nome código para a "pista")

A culpa disto, e aqui é que vocês se vão atirar ao ar, é da AUTORIDADES!

Reparem: Será que é muito difícil , numa recta com DEZASSETE quilómetros , inundada de câmaras, aperceberem-se de uma "corrida" e fecharem o transito na outra ponta?

Bolas, eu até tinha tempo de acabar o café com Donuts!

Mas não. Arranjam um oficial penteadinho,com um boné muito bonito, para ir para a televisão dizer que as autoridades não tem o poder da "omnipresença"! Omnipresença? Caraças, isso é uma RECTA! é muito dificil cortar o trânsito numa recta , e apanhar os gajos. E tirar-lhes os carros? E pegar-lhes fogo? E distribuir cabos de enxada pelos automobilistas que viram a vida por um fio para largarem o stress?

Isto só lá vai com poder! Não venham com palavreados caros, e com a mesma conversa da treta! Radares! Lombas! Helicópteros! Multas! Prisão! Carros apreendidos!

Não é com as televisões a irem " À boleia" no banco de trás com os parvalhões. Isso era como seguir um serial Killer por ruas escuras. " Vamos agora ver como ele corta o pescoço a esta vítima..."

Mas para fazer isto, tem de se dar condições a esta camada da população para que possam acelerar em segurança. Eu gosto de acelerar! Podem crer que os grandes progressos da humanidade, nos ultimos cem anos, se devem á necessidade de velocidade. Por isso é necessário ter espaços próprios para acelerar. Mesmo GRATUITOS!

Não podemos olhar para o Estoril como a única hipótese de "apertar" com um carro em segurança. O Estoril é bom para o menino da linha, ou do privilegiado do papá de Cascais. O Estoril , é uma carga de trabalhos para lá ir, parece que a pista é de ouro. O Carlos e o Tó de Santa Iria, precisam de uma pista também. Tem de haver uma pista no Montijo, e outra em Sacavém! E outra em Santa Iria!
Conforme existem os parques de skate e de baloiços. Existe muito mais interessados em ter uma pista local, camarária, do que putos com um skate. Ou de um clube de futebol em Alguidares de cima com vinte pessoas a assistir, e que não passa da quarta divisão regional. Fazer uma pista é fácil e barato. Bastava terraplanar e um pouco de alcatrão! Aproveitar um excerto de estrada qualquer e fechá-lo ao transito. Para uma boa causa, e para fazer as pessoas felizes.Fazer clubes locais.Isto era votos em caixa!

Em Inglaterra, existem pistas e autódromos por todo o lado e feitio. Gratúitas, ou com preços acessíveis. Isso, aliado a uma repressão fortíssima e ficaz, resulta num descanso.Vou acelerar que nem um desalmado para a pista, como se o mundo fosse acabar amanhã, mas passo a semana a andar nas calmas. RESULTA. As imagens de Portugal, mostradas por aqui aos ingleses, são uma VERGONHA para o nosso País. Uma vergonha. Nem acredito no que vejo!

Continuem assim, que vão por um lindo caminho...Arranjem é mais agências funerárias...

O Paciente Inglês


Esta foi uma das minhas primeiras crónicas publicadas pela revista Topos&clássicos, em Maio de 2006.

Texto e fotos : Mike Silva ( C) 2006 Sala das Máquinas


Embora pareça ter saído de um dos episódios de Mr.Bean, o Reliant Robin foi uma tentativa honesta de proporcionar mobilidade nos tempos difíceis do pós -guerra.
Amado por uns , gozado por outros, este simpático e vagaroso automovel não deixa contudo ninguém indiferente à sua passagem.

O som que se aproximava , ecoando por entre as típicas casas britânicas de tijolo ainda sujo de fuligem da era da revolução industrial,quase que me enganava; Ia jurar que o veículo que se aproximava era apenas mais uma das minimalistas criações de Alex Issigonis. Mas a reacção das crianças na esquina, a apontarem frenéticamente na sua direcção, fizeram-me saber que o desajeitado Reliant tinha chegado. O rosnar nervoso do motor Reliant de 850 cc, e o aspecto de Fiat 127 com apenas uma roda a frente, drogaram-me de imediato.

Construido em Tamworth, Staffordshire, região marcadamente industrial e mineira, este veículo pretendia explorar um nicho de mercado onde aqueles que não podiam aceder financeiramente a um automóvel, o podiam fazer com o Reliant, onde bastava a carta de motociclo. Estando o motociclo largamente difundido no pós-guerra, até mesmo como meio de transporte familiar, ( à semelhança de Portugal, nas décadas de 50 e 60 com as Sachs, Casal e companhia) não foram poucos os que ,estando habilitados apenas para a condução de motociclos, ficaram radiantes com este novo modelo. Como extras, podia-se optar por um "conjunto" de jantes especiais, formado por apenas duas jantes, para as rodas traseiras, e uma grade para o tejadilho.

Vendido a um preço muito inferior ao de um Morris Minor, o Reliant reinou até ao aparecimento do Mini, onde veio a perder interesse e clientela ate ao fecho da fábrica em 1998. Nao foram alheios os problemas dinâmicos e de imagem durante os anos de fabrico. Acusações de insegurança devido ao formato de triciclo, permanentes enxovalhos na via pública,onde os peões se riam e troçavam em surdina, participações em séries cómicas, denegriram e desmoralizaram progressivamente a carreira do pequeno Robin. Como cá se fazem, cá se pagam, existe hoje uma enorme procura por este carro, estando por isso bastante inflaccionado, e os peões que outrora gozavam, hoje empunham telefones e disparam por onde quer que ele passe.
Mr. Brian, o reformado da cerâmica feliz proprietário deste Rialto, facelift de início dos anos oitenta do Robin, não percebe o meu olhar de admiração, e insiste em dizer que o carro é uma porcaria.

Quando pergunto se o quer vender, ajeita a bóina e dispara em dialecto Potteries, que já está velho para mudanças, e que agora ele ( O Reliant), vai ter de o carregar até cair de podre. Com efeito, construído em simples varão de ferro quadrado e soldado, muitos foram os Reliant que pereceram rapidamente. Jessie, o Reliant de Mr .Brian, teve a sorte de ser tombado em cima duns pneus e levar umas grotescas demãos de tinta marítima utilizada para revestir o fundo das barcaças dos canais. A carroçaria de fibra de vidro destes automóveis, apesar de não apodrecer, não raras vezes era atamancada por sapateiros de cada vez que se despistava ou embatia nalgum valado.

Quando expliquei a Mr .Brian porque é que queria dar uma volta no carro dele,expliquei que era para tirar umas impressões para mostrar lá em Portugal, e ele olhou-me desconfiado julgando que eu queria levar-lhe a Jessie. Sempre quis escrever sobre o Reliant desde o primeiro momento que vi um, e tinha pensado em contactar o Reliant Owners Club, mas entretanto o rosnar empertigado da Jessie a passar debaixo da minha janela às seis da manhã de todos os Domingos, sempre que o velho Brian vai tentar vender os seus cacarecos na habitual Car Boot Sale, levou-me a interessar por este particular carro ainda na luta diária, em vez de um restauradinho e guardado na garagem.

Após algumas voltas a pendura, circulando pelas ruas cravadas de lojas "fish & chips" e olhado de soslaio de cada vez que Mr. Brian observa o retrovisor, começo a ganhar o feeling de circular em tal engenho. Num barato tablier de plástico , que incorpora uma consola, são visíveis alguns items emprestados da extinta Austin-Rover. Indicadores, manetes, puxadores, não conseguem esconder a sua origem British Leyland. O motor ecoa pelo habitáculo, ameaçador, como se a qualquer momento fosse rebentar com o tablier. Este, por sua vez não deixa muito espaço vago onde eu possa meter as pernas. Os Staffordshire Terriers tentam competir com o barulho do motor, ladrando incessantemente, enquanto Mr. Brian vocifera impropérios tentando acalmar os cães.
Após alguns minutos, ganho coragem, e peço a Mr.Brian para me deixar pilotar. O silêncio, seguido dum abrir de porta, mostrou-me que tive sucesso.
O arranque , é repentino, por mais que se doseie a embraiagem. De cada vez que curvo, tenho de passar um pouco para a outra faixa, tipo camião, devido à pouca brecagem. Aquela sensação de prestes a capotar, o que me obriga a seguir devagarinho. Este é sem dúvida um carro para quem quer ser notado. Por onde quer que passe, os olhares convergem na minha direcção, enquanto tento fazer um ar o mais inglês possivel. Olho para uma vitrine e vejo-me a pilotar um "Cessna", embora sem asas. O acelerador , bastante vivo, transmite alguma adrenalina às rodas de dez polegadas vindas sabemos muito bem de que modelo, mas o ponteiro da velocidade move-se com dificuldade até estagnar proximo das 50 milhas por hora, cerca de 80 Km/h. A alavanca de velocidades move-se livremente na lateral, exigindo algum " adivinhar" sempre que pretendo engrenar uma mudança,originando por vezes um forte arranhar que se estende por todo o meu braço.
A travagem ,claro está, não podia ser nada de especial; Convém ter a roda da frente a direito, senão ela será "empurrada" conforme estiver, travando como um sabão dentro de uma banheira. O peso do motor e da caixa,situados convencionalmente a frente e longitudinalmente, contribuem para uma direcção pesada. A caixa de direcção ,de sector dentado, também foi emprestada da BL, com a diferenca de que apenas movimenta um braço ligado ao garfo da roda da frente.


Apesar de poder circular nas auto-estradas, não me atrevi sequer a entrar numa, porque seria suicídio. Conduzi de volta o pequeno Reliant, sob o olhar aliviado de Mr. Brian, e dos seus cães que vomitavam os pulmões de tanto ladrarem.
Quantas histórias terá a Jessie para contar ? Deixo Mr. Brian e a Jessie, com a sensação de estar a deixar os protagonistas de uma qualquer série inglesa, na esperança de que , talvez um dia ele me bata a porta numa manhâ de Domingo a convidar para ir a cidade vender uns cacarecos na car boot sale...